Crítica “Um família de Dois”

“Estão se tornando cada vez mais raras as oportunidades que temos de aproveitar a experiência de um roteiro profundo no cinema sem os costumeiros recursos visuais e narrativos que tornam a história e os personagens mais pesados sem necessariamente entregar muita substância no resultado final.

É um alívio enorme ter me deparado com “Uma Família de Dois”: foi a surpresa que eu estava precisando para me lembrar o porquê meu gênero favorito sempre foi o drama, apesar de minha atenção estar voltada constantemente para as grandes produções e filmes de heróis.

Vivendo no ensolarado litoral sul da França Samuel (Omar Sy) trabalha pilotando lanchas para ricaços e animando a vida noturna das praias locais. Seu ciclo de interminável diversão e promiscuidade é interrompido subitamente pela chegada de Kristin (Clémence Poésy), uma garota britânica que vem para deixar com Samuel o resultado de sua noite de farra do ano anterior: a filha de Samuel, uma bebê de poucos meses de idade chamada Gloria.

Ele tenta convencer a mãe a não abandonar a criança, e persegue Kristin de volta a sua cidade natal, no Reino Unido. Sem sucesso, Samuel se vê em um determinado momento sozinho na capital britânica com Gloria sob sua responsabilidade e tenta fazer uma nova vida para si trabalhando como dublê em séries de ação enquanto tenta criar a filha da melhor maneira possível sem a presença da mãe.

A melhor parte dessa breve sinopse aí em cima é que a essência da sequência de eventos é tão simples quanto a descrevemos. Samuel está acostumado com a vida de bebedeiras e sexo sem compromisso até a reviravolta causada pela chegada de Kristin. Faz parte da premissa do filme que saibamos sobre a relação que ele cria com a filha, e é natural que a audiência também espere de Samuel uma certa amargura ou mesmo ressentimento por ter tido o seu estilo de vida completamente mudado pela chegada inesperada de uma criança.

A atuação primorosa de Omar Sy faz com que possamos nos identificar com a situação pela qual ele está passando assumindo essa imensa responsabilidade. Ele é transformado pela chegada de Gloria, ao mesmo tempo em que continua sendo o mesmo cara que está acostumado a usar e abusar do seu carisma para conseguir o que quer, no melhor estilo canastrão que tudo mundo adora no cinema. Ele vai de pai improvável a melhor pai do mundo, e essa é uma jornada deliciosa de se acompanhar.

É claro que o ponto alto do filme é a relação criada nessa família improvável, que o título traduzido nos faz acreditar que é composta apenas por Gloria e Samuel. No entanto o personagem de Omar Sy conta com a ajuda constante de Bernie, interpretado por Antoine Bertrand, o produtor dos filmes e séries em que Samuel atua, e que lhe permite prover o sustento e conforto para Gloria. Ele é um alívio cômico sem exageros e muito bem dosado, e praticamente assume o papel de mãe na criação de Gloria, até que Kristin finalmente retorna pra a vida deles.

Esse é um filme com um clima delicioso de roadtrip movie, mas com uma carga dramática um pouco mais acentuada do que os filmes hollywoodianos, afinal estamos falando do cinema francês. Embora sua estética seja construída com muito cuidado, não temos nenhum elemento de enorme destaque, e nem é necessário. O importante aqui é a relação entre pai e filha, e as distâncias enormes que Samuel está disposto a ir para garantir que Gloria tenha uma vida plena e feliz ao lado de quem ama.

Temos aqui mais uma vez aquela (sempre necessária) lição primorosa de que a vida vale a pena não importa as dificuldades pelas quais passamos, e no nosso mundo de hoje esse tipo de mensagem faz toda a diferença no cinema. Vale cada segundo da experiência.”

Essa crítica foi feita por Felipe Bittencourt (@flpbittencourt). 

Autor: Ana Paula Fernandes

Designer Gráfico apaixonada por cinema e leitura, curiosa de tudo e que adora conversar (as vezes até demais). Começou o lápis 2b como forma de perder a vergonha e agora acabou a que tinha na geladeira.

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