Crítica da nova adaptação de Dona Flor e Seus Dois maridos

Dona Flor e Seus Dois Maridos 

 

Como o próprio Pedro Vasconcelos – diretor da nova adaptação de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado – tão bem colocou, esse filme é uma obra poética. É uma obra bela e bem construída.

Dona Flor e Seus Dois Maridos é trazida de volta por uma equipe de incríveis profissionais. Os personagens principais são revividos por Juliana Paes (como “Flor”), Marcelo Faria (como Vadinho) e Leandro Hassum (como Teodoro). Porém, não foi só o elenco que chamou atenção nesta nova adaptação. Todo o filme parece ter sido construído como um conjunto muito bem armado de uma sinfonia, com as cenas, a trilha sonora e tudo mais em seu lugar, com exceção de alguns poucos momentos onde o tom se perde um pouco e ficamos sem saber se o filme é realmente comédia ou drama.

A história gira ao redor de Dona Flor, que fica viúva de Vadinho, um homem extremamente trambiqueiro e violento, mas com um fogo e um gingado incrível. Ela, em seguida, se casa com Teodoro, o doce farmacêutico que da à Dona Flor todo o amor que ela precisa – com exceção do amor na cama. É quando o fantasma de Vadinho reaparece na vida da mulher, dizendo que ela o chamou porque sentia falta dele.

Apesar de ser um filme que se passa na nos anos 40, ele possui uma certa modernidade em seu cerne e não só pelo empoderamento da protagonista – que vem já desde o livro, morder demais para a sua época -, que se reserva no direito de decidir o que quer para a própria vida. O filme possui cortes, movimentos de câmera e cenas bem construídas e claramente a frente de seu tempo, que dão ao filme uma continuidade belíssima e cenas poéticas e marcantes em vários momentos. É na edição que o filme se baseia, mesmo em cenas onde poderiam ser usados efeitos gráficos, o diretor deixou bem claro que faria tudo para que isso não se tornasse necessário, se apoiando bastante na bela atuação do elenco e do trabalho de edição ao final.

A trilha sonora também ajuda a construir o clima de Dona Flor e Seus Dois Maridos, chegando a fazer o telespectador se arrepiar em certos momentos. A música traduz perfeitamente o estado de espírito da personagem principal e seus desejos mais profundos.

Como o próprio Pedro deixou bastante claro, eles preferiram evitar comparações entre as adaptações, pois segundo ele o roteiro deste novo filme “é do próprio Jorge Amado”. Ele não queria que as adaptações anteriores o deixassem preso a um certo tipo de visual e isso fez com que eles conseguissem trazer uma nova e fantástica versão a essa obra.

Segundo Juliana Paes, a recomendação foi ler apenas o livro e não se ater às adaptações anteriores e ela e todos no elenco seguiram essa recomendação à risca, tornando Dona Flor e Seus Dois Maridos a sua nova bíblia.

Crítica Emoji: O Filme

Crítica Emoji: O Filme

Se tem uma palavra que define muito bem o que é esse filme é “Meh”. Emoji: O Filme é uma cópia de Divertidamente, cheia de propagandas da Sony e merchandising do Candy Crush e Spotify.

A história se passa dentro de um celular, o aparelho do garoto Alex, que tem uma grande queda por uma menina de sua sala chamada Addie. Dentro de seu aparelho existe o imenso mundo dos aplicativos e dentro desse mundo está a cidade dos emojis, Textopolis, no aplicativo de mensagem. Dentro dessa cidade, os emojis tem apenas um trabalho, permanecer com a sua “face de emoji” a todo instante, então se um emoji é o emoji sorridente, ele estará sempre sorridente. A história segue o protagonista Gene, que falha em seu primeiro dia de trabalho como emoticon, sendo incapaz de reproduzir a sua face, que é a Meh. Logo ele começa a ser perseguido, por ser um bug no sistema e foge do seu app, junto com um emoji esquecido e antes pertencente aos favoritos, o Bate Aqui, à procura da hacker que possa ‘consertá-lo’, a Rebelde.

Desde o começo é possível ver a semelhança entre ele e o filme em que, acredito eu, ele se inspirou, divertidamente. Os emojis dentro do celular de Alex fazem de tudo para que a vida dele se torne mais fácil, eles só querem ajudá-lo de toda forma possível e quando Gene perde o controle, ele põe tudo a perder. E até mesmo quando eles estão fugindo dos robôs que colocaram para persegui-lo e acidentalmente ‘liga’ alguns aplicativos ele coloca esse objetivo em cheque, fazendo o dono do aparelho passar por momentos vergonhosos.

Uma das grandes falhas do filme é a falta de empatia dos personagens. Eles não são divertidos, são superficiais e pouco explorados e é muito difícil para o público criar uma conexão com eles. Eles passam por situações que deveriam ser engraçadas, mas muitas vezes são muito forçadas em uma jornada nada atrativa e o espectador é obrigado a assistir o pesadelo dos emojis na sua frente, com músicas legais, mas que não enganam o que realmente é o filme.

Pra não dizer que é uma total perda de tempo, o visual do filme é muito bonito. Tem cores vibrantes e pode ser divertido para uma audiência que esteja acostumado com esse tipo de ambiente – o de celulares -, porém depois de alguns minutos tudo isso fica maçante e chato de se ver.

Esse não é um filme divertido o suficiente para crianças, que pouco interagem com emojis, tampouco maduro ou com conteúdo para que um adulto ou um adolescente querer ver. É como se a Sony tivesse pego Toy Story, Divertidamente e Detona Ralph e colocasse no liquidificador junto com o emoji do cocô – que, aliás, é uma celebridade em Textopolis – e dai tivesse surgido Emoji: O Filme.

Crítica Polícia Federa – A Lei É Para Todos

Crítica Polícia Federal - A Lei É Para Todos

Filme baseado no livro de mesmo nome, pelos autores Carlos Graieb e Ana Maria Santos, a obra Polícia Federa – A Lei É Para Todos trás um retrato das primeiras fases da Operação Lava Jato, da perspectiva dos policiais e delegados envolvidos no caso. Um filme que, segundo o diretor Marcelo Antunez, ‘não é político’. Ou não é para ser.

A obra tem como objetivo esclarecer o que aconteceu durante as primeiras fases da operação e, com sorte, levar alguma reflexão aos espectadores sobre o que está acontecendo no país. Ela nos guia desde o começo das operações, a partir do que era para ser uma investigação de contrabando de drogas até a condução coercitiva do ex-presidente Lula. É claro que ainda há muita história para contar e que esse filme faz parte de uma série.

“Que país é esse?”, é uma frase que aparece diversas vezes durante o caso, como visto no filme como fala de um dos réus, que não acredita que está realmente sendo preso – e também na própria operação, como nome de uma das fases. Essa é a frase que guia o filme, pois mesmo em uma operação tão grande e intensa quanto essa, alguns dos policiais ainda não acreditam que serão capazes de mudar alguma coisa no país com tudo que estão fazendo em suas investigações.

O filme é mostrado pela visão da Polícia Federal e, especialmente três oficiais que protagonizam a cena em questão, os delegados Julio Cesar e Beatriz, interpretados por Bruce Gomlevsky e Flávia Alessandra e Ivan Romano, o coordenador da Lava Jato, interpretado por Antonio Calloni. Os policiais neste filme são trazidos como os heróis da história, os mocinhos que vieram para acabar com o mal presente no país, coisa que até para eles parece ser impossível. O protagonismo deles é tanto que até o juiz Sergio Moro (Marcelo Serrado) é deixado de lado. Quase não ouvimos o seu nome, sendo ele referido comumente como apenas “O juiz”. Apesar do estrelismo destes personagens, a presença da delegada Beatriz e o empoderamento que lhe deram é um alívio e é recebido de braços abertos.

O filme é repleto de exageros e enquanto idolatra os oficiais que cuidam do caso, trata os empresários e políticos como bandidos, estes que aparecem com seus nomes reais na película, quando todos os oficiais ganharam pseudônimos. É um filme tão repleto de mistérios quanto seu roteiro, pois nem o investidor secreto foi revelado. Especulações rolam pela internet sobre quem estaria por trás da obra e que talvez esse seja o motivo dela focar tão fortemente no idealismo da PF e no vilanismo de alguns partidos específicos (diga-se de passagem, o PT) em detrimento de outros.

Deixando de lado o roteiro e aceitando que, em uma obra desse porte, algumas licenças poéticas precisaram ser tomadas, é bem fácil elevar esse filme a um patamar de um típico filme policial, com cenas de ação emocionantes – pois embora o trabalho da PF seja majoritariamente de investigação, ninguém aguentaria ver 2 horas apenas disso na tela -, personagens cativantes e um mistério maior a ser desvendado. A forma como a obra é executada é primorosa, nos trazendo cenas bem editadas e dirigidas, com luz e enquadramento muito bons e atores talentosíssimos.

Policia Federal – A Lei É Para Todos pode ter algumas incoerências nos fatos, mas foi muito bem executado como uma obra policial e vai depender de cada um que o assiste, determinar até onde levá-lo a sério.

Crítica “Gostosas, Lindas e Sexys”, filme de comédia nacional propõe empoderamento mas cai em lugar comum.

Se existe uma categoria de filme que sofre muito preconceito do público mais amante do cinema com certeza é a comédia nacional. Mesmo com obras incríveis que levam milhões de pessoas para as salas de cinema, esse tipo de filme vem sentindo há alguns anos um preconceito latente; Resultado obtido pelo perfil de muitas produções que se sustentam em piadas antigas e geralmente de cunho sexual.

“Gostosas, Lindas e Sexys” apesar de entrar nessa categoria se diferencia por uma proposta diferente do que estamos acostumados a ver em termo de cinema brasileiro; O filme dirigido por Ernani Nunes e roteiro de Vinícius Marquez, conta a história das amigas Beatriz (Carolinie Figueiredo), Ivone (Cacau Protasio), Marilu (Mariana Xavier) e Tânia (Lyv Ziese). Quatro mulheres que lidam diariamente com o preconceito de serem plus-size e buscam se afirmar como lindas e poderosas na sua vida pessoal e profissional.

Um dos principais acertos do filme é a química entre as protagonistas, onde cada uma demonstra uma personalidade única que se integra no texto quando estão todas em cena. Infelizmente pela escolha de dar a cada uma delas uma linha narrativa, o tempo de tela acaba ficando pobremente dividido, onde a personagem Beatriz toma conta deixando as outras personagens com um tempo muito restrito. O que acaba sendo uma perda de oportunidade, especialmente que os momentos reservados para as outras mulheres (especialmente a Ivone) são os pontos altos de comédia na história.

O background de teatro do roteirista se mostra muito presente nos diálogos. Com um texto que se encaixaria muito bem em uma peça, mas que no formato de cinema se mostra muito polido e não natural. Além disso, ao decorrer do filme são apresentados subplots com personagens e situações com grande potencial de desenvolvimento, que são esquecidos e desperdiçados ao passar do tempo.

A própria discussão sobre o preconceito que as personagens sofrem pelo peso de cada uma delas é esquecido, fazendo com que a proposta de empoderamento claramente apresentada no primeiro ato do filme seja deixada de lado, fazendo com que o filme seja apenas mais um onde o final feliz de uma mulher é encontrar um homem que a ame de verdade. Além disso mesmo com um elenco maioritariamente feminino, é claro um entendimento superficial do texto em entender as questões femininas, onde as mulheres magras são colocadas como inimigas das mulheres plus-size, afirmando um senso de inimizade típico apresentado na mídia.

É um filme que nem sabe a história que está contando, que se perde em decidir o seu plot principal e que mais se parece com uma série de TV que foi editada para caber em tempo de filme. Talvez na realidade se fosse filmada como uma série sua proposta ficasse mais clara e melhor desenvolvida.

Tem suas cenas engraçadas, muito sustentadas pelo carisma das atrizes principais. Mas como um todo é um filme esquecível e que acaba no lugar comum. O que particularmente me entristece pela oportunidade perdida de trazer um protagonismo de mulheres reais em uma mídia que procura as ignorar.

Nota final: De 0 a 5 Lápis, “Gostosas, Lindas e Sexys” o filme merece 1,5. Tem seus momentos divertidos, mas como um todo é uma obra que não funciona.
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